HARMONIZAÇÃO É COISA DE ESOTÉRICO

Carnes nobres, risotos, massas e uma infinidade de pratos que são vistos como ícones da alta gastronomia vêm ganhando cada vez mais espaço nos dias de hoje. Nessa toada, diferentes grupos de pessoas comuns, artistas e profissionais se reúnem para elaborar cardápios em casa, os programas de TV enaltecem os chefs, dando glamour e tirando um pouco da gordura que fica entranhando pelos poros depois de mais de 13 horas em pé, numa cozinha quente e cheia de malucos gritando por causa daquele molho que não dá ponto de jeito nenhum. Cozinhar ficou chique, mesmo que muita gente não faça a menor ideia do que está colocando na panela e na boca.

Experimentar pratos novos está cada dia mais fácil o problema é quando aparecem os magos da harmonização e tentam empurrar goela abaixo duas coisas que estão na moda: cozinha e cervejas artesanais. “É aí que a porca torce o rabo”, como dizem os mais sábios.

Correndo o extremo risco de ser segregado, jogarem uma caixa de Cintra na minha janela, cuspirem na minha comida nos restaurantes e outros dramas, que o Kajuru também vai alegar ser uma mazela apenas dele, digo: cerveja e comida não combinam, e nunca vão combinar!

Nesse momento sei que o sangue pode ter subido aos seus olhos, caro leitor, porém reafirmo o que você acabou de ler e explico o porquê dessa teoria.

Com a popularização das chamadas cervejas artesanais e de seus diferentes estilos, uma gama de “especialistas” insistem em fazer boletins, lançar manuais e dizer como você deve comer e beber. Talvez essa lógica tenha partido das harmonizações dos vinhos com pratos e ao transformar a cerveja artesanal numa bebida “gourmet”, alguém viu que podia dar samba.

Bom, vale a pena dizer que cerveja não é vinho. Em um primeiro lugar isso se explica pelo fato de a cerveja ser um fermentado de cereais com grande quantidade de amido e o vinho um fermentado de fruta, bem mais leve. Os ingredientes que compõem cada uma das bebidas já falam por si, e a cerveja tem os mesmos ingredientes de um pão. Então saborear um delicioso pato com arroz negro, acompanhado de 500 ml de cerveja é o mesmo que acrescentar um pão artesanal de meio quilo na sua dieta. Isso também não quer dizer que a cerveja fique legal com manteiga.

Então um jeito bom pra saber como a cerveja e a comida chegarão ao seu estômago é esse: veja o prato e tente imaginar se ele ficaria bom com um belo pedaço de pão artesanal, se a resposta for afirmativa, dificilmente ambos te deixarão empapuçado.

Quando se diz que uma rauchbier vai bem com presunto di Parma ou copa, significa uma mísera fatia e não um banquete viking.

Outra razão para essa aversão à harmonização maltada é o fato, por exemplo, de as cervejas trapistas terem sido desenvolvidas para consumo dos monges durante os quarenta dias de jejum da Quaresma, ou seja: bebia-se o pão.

Talvez pelo valor elevado no Brasil de uma cerveja artesanal essa necessidade de harmonização é tão grande, como uma justificativa míope: “a cerveja é cara, mas se harmoniza com pratos sofisticados”. Isso é um grande equívoco, afinal a cerveja é cara porque o governo é barato.

Os sommeliers de cerveja estão espalhados por aí e muitos deles não passam de vendedores, que tentam colocar na carta de bebidas de restaurantes cervejas sem muito sabor, apenas pelo gostinho da comissão.

Daí você pergunta: “Mas eu vou sentar em uma mesa de bar por horas para tomar umas cervejas artesanais e não vou comer nada? Você deve estar louco”!

Sim, pessoa. Quem não entende nem o que está bebendo e a premissa de uma cerveja artesanal, que é muito mais concentrada e sacia em apenas uma garrafa, não pode seguir nenhum tipo de guia de harmonização.

Para não dizer que sou contra todo tipo de harmonização, a única harmonização que eu ainda considero é a perfeita união de uma cerveja vagabunda bem gelada com aquele torresminho, de preferência num pé sujo local.

Autor

Alex Chrispim

Editor e Redator do blog Humor & Malte desde 2009. Além de escrever sobre o assunto, também produz, bebe e critica a própria cerveja.

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