COMO O BRASIL PREJUDICA O DESENVOLVIMENTO DE SUA PRÓPRIA INDÚSTRIA.

O mercado consumidor de cerveja brasileiro sempre foi muito forte, há décadas o Brasil é considerado um dos maiores no segmento. Fora do país a abrangência é ainda maior, pois o Brasil tem a maior empresa do setor no mundo, após ter adquirido a Budweiser, da Anheuser-Busch.

Mas quando a gente fala de cerveja, o fator quantidade está sempre inversamente ligado à qualidade. Apesar de na última década o brasileiro ter se acostumado a saborear as cervejas consideradas especiais – por ser do jeito que uma cerveja precisa ser – esse gosto fica um pouco salgado no bolso. Um grande número de pequenas cervejarias com excelentes produtos não existe oficialmente, por isso a produção de cervejas especiais do Brasil ainda engatinha e esbarra em um dos maiores problemas da nação: a burocracia.

Hoje, construir uma cervejaria aqui, por menor que ela seja, não compensa e muitos  donos precisam de uma segunda fonte de renda para conseguir operar no azul no fim de cada mês. Isso se deve primeiramente aos impostos surreais cobrados a um micro produtor do segmento, liderado pelo maior vilão de qualquer empresário do setor: a substituição tributária. Esse imposto destinado às indústrias grandes e pequenas visa uma arrecadação baseada na produção e venda e no final quem paga é o consumidor, por exemplo: uma empresa que vende produtos mais caros, paga tributos mais caros. Uma matemática simples, mas que acaba com diversas cervejarias no Brasil mesmo antes delas existirem no papel.

Mas como isso atinge as pequenas cervejarias?

Uma cervejaria de grande porte compra toneladas e toneladas de malte, tem mini usinas de tratamento de água e esgoto (por lei ambiental), contam com várias fábricas espalhadas pelo país e seu capital é aberto, ou seja, possuem acionistas que investem diariamente nela. Isso tudo resulta em uma grande linha de produção com milhares de litros engarrafados diariamente e distribuição feita por frotas, essa soma de fatores resulta em um preço final bem abaixo dos R$ 2 por litro produzido. Logo, cada um desses litros produzidos recebe sua taxação e pode ser vendido para o consumidor final por R$ 5.

 

A realidade é bem diferente em uma micro-cervejaria, legalizada. Essas cervejarias normalmente possuem uma sede pequena, de poucos metros quadrados e precisaram investir em tudo que o governo exige das grandes cervejarias (que ocupam áreas maiores e causam danos ambientais por isso) para funcionar; a compra de malte é feita em no máximo meia tonelada por mês e a produção se resume a poucos milhares de litros por ano. Certamente a compra de insumos para a produção sai a um valor elevado, pois é bem pequena e a

distribuição depende de um serviço terceirizado para chegar ao destino. Tudo isso gera custo ao cervejeiro e um litro da bebida básica produzida não sai para ele por menos de R$ 6 a R$ 8. Somamos a isso o imposto a partir do preço final e teremos um produto com custo em torno de R$ 12 a R$ 15.

O problema não para por aqui. A cervejaria precisa ter lucro para se manter e esse preço subirá. Por sua vez o revendedor também precisará tirar a diferença e de um preço inicial de R$12 o consumidor final vai ter que tirar do bolso em torno de R$ 20. Essa disparidade toda leva a um fenômeno entre as cervejas especiais: hoje é mais barato comprar uma cerveja importada que uma nacional.

Esse fenômeno também sufoca as cervejarias, pois em um estabelecimento com rótulos internacionais famosos entre os apreciadores e uma marca nacional ainda desconhecida, que é mais cara, a opção fica quase sempre pela importada. E a cerveja que surgiu no esforço perde espaço na geladeira até que a fábrica não tenha mais como arcar com custos de sua produção e se pulverize.

Uma reformulação nas leis da micro produção precisa ser feita, pois há mercado. Todos que produzem cerveja querem estar dentro da lei, pagar impostos justos e ter o reconhecimento de órgãos federais como uma indústria artesanal.

A grande ironia hoje é que apesar de o Brasil ter a maior empresa cervejeira do mundo, nossas leis e estatutos não ajudam os pequenos produtores do setor. Mesmo assim essas cervejarias nacionais possuem rótulos premiados e conhecidos no mundo inteiro, menos aqui.

Na próxima semana:

Falaremos sobre algumas microcervejarias e o que pensam seus diretores.

Autor

Alex Chrispim

Editor e Redator do blog Humor & Malte desde 2009. Além de escrever sobre o assunto, também produz, bebe e critica a própria cerveja.

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